sábado, novembro 15, 2003

As perfurações foram profundas e diversas e com os poucos recursos disponíveis a Jerry, qualquer atendimento mais especializado estava fora de cogitação. Foram alguns dias no hospital, algumas compressas e bandagens e um par de óculos escuros baratos na saída do hospital. Ainda delirante prestou seu depoimento aos detetives e promotores que estavam envolvidos no caso, que espantaram-se com a serenidade apresentada pela vitima, que somente queria ter certeza de que Jackie estava bem e que nada lhe aconteceria. Ele tampouco estranhou o fato dela não ter vindo visitar-lhe atribuindo tal indiferença ao choque sofrido e seu frágil estado emocional.
Ralph por sua vez era somente nervos, preso em flagrante, as mãos sujas de sangue, a agressão ao policial que não tinha direito algum em tocá-lo, o cacetete abrindo um corte na têmpora, as algemas e a ligação desesperada para o papai. Quando o juiz que sofria de hemorróidas crônicas e que não agüentava mais estar sentado naquele tribunal decidindo o destino de vidas que lhe pareciam sem futuro negou fiança devido a gravidade do crime e a intolerável atitude e desrespeito do réu, que por sua vez pos-se a insultar o juiz tornando ainda pior a sua situação, Ralph chorou lágrimas de indignação e culpou seu pai e advogado por tamanha incompetência. Dois policiais tiveram de carregá-lo de volta a cadeia onde passaria mais uma noite sendo violentado durante toda a madrugada.
Contra a vontade da família, que gostaria de acabar com essa estória de uma vez por todas, Jackie tomou um táxi e foi visitar Ralph. Enquanto olhava indiferentemente pela janela do carro, pensava no quanto ainda queria a Ralph, pensava em como essa vizinhança era feia e diferente da sua, pensava em como deveria ter posto um baton diferente e como essa cor não combinava com a sua blusa. Não, ela não pensava que no outro lado da cidade, sentado em um sofá escutando rádio e aprendendo braile estava um jovem que começava a tomar consciência da injustiça que fora cometida contra ele.
Através de um grande vidro Jackie viu uma figura pálida e magra, com cabelos desgrenhados, barba por fazer e um andar estranho, com as pernas separadas, embora naquele momento ou em qualquer outro ela não viesse a entender o porque.
Também através do vidro ela não pode sentir o cheiro de vários dias sem banho que foram a única forma de evitar um contato ainda maior com o resto da comunidade carcerária que adorava tirar uma casquinha daquela doçura arrogante.
As conversas foram curtas, cheias de palavras como vingança, injustiça e reparação. Sobre advogados, suborno, juizes, bandidos, atentados. Sobre jóias, cofres, presentes, penhores. As conversas não eram sobre:
Amantes.
Doença.
Estupro.
Cansaço.
Desilusão.

Através de uma agência assistencial, Jerry tinha duas vezes por semana assistência médica e psicológica em uma clínica da cidade. Seu jeito simples e a situação em que chegara a sua condição logo lhe trouxeram uma estima geral por parte de todos os funcionários, gente simples, que atendia na periferia, não por opção mas por necessidade, que também tinham suas dificuldades em pagar as despesas, aluguel e bebida. Entre esses funcionários haviam dois que realmente não tinham muitos motivos para queixas. Os motoristas de ambulância. Funcionários dedicadíssimos, sempre os primeiros nas cenas dos acidentes, Bill e Matt eram o orgulho da instituição.
Óbvio que a instituição não sabia que havia uma certa competição do espólio entre a polícia e as ambulâncias. Quem chegasse primeiro levaria o relógio, as jóias, o dinheiro e algumas vezes até mesmo as roupas das vitimas. Coisa pouca, nada demais. A única diferença é que a ambulância possuía isopores.
Não, não vou explicar o motivo dos isopores agora. Se a curiosidade é tanta e o raciocínio pouco, siga lendo. Prometo que fará sentido no final.
Voltando a história, após dois abortos, três relacionamentos com homens casados e várias trocas de roupa, Jackie esperava por Ralph nos portões da penitenciária sete anos, oito meses e vinte sete dias após aquela fatídica tarde. Ainda eram jovens. Ainda tinham uma vida inteira. Ainda havia esperança.
Jerry ficou sabendo da libertação do primo através do pessoal da clínica que tentava algum tipo de choque para fazê-lo sair daquele estado depressivo. Durante todos os anos após o incidente, Jerry sempre fora cordial e educado com todos e era estimado por isso mas até mesmo o menos atento observador podia observar a nuvem de melancolia que pairava nos ombros do rapaz. Nossa vitima não tinha tanta forca de vontade quanto carisma e o alívio para suas constantes depressões foi encontrado na bebida. Cada vez mais os dias eram muito mais fáceis de suportar após alguns tragos em qualquer bar, em casa, chegando a ponto do pessoal da clínica manter uma certa vigilância nas garrafas de álcool do local após Jerry perguntar casualmente onde elas eram estocadas.
A vida de Ralph e Jackie também não estava fácil. Após a prisão do filho, o pai encantara-se com uma colega de classe do jovem que fora buscar informações sobre ele e acabara casando-se com ela. Percebendo claramente a fraqueza do velho, a adolescente abusara do direito de pedir jóias e presentes que lhe eram prontamente dados para depois de vendidos serem gastos em pó e na casa que estava construindo com o amante. Obviamente quando o filho retornou ao lar, encontrou um pai divorciado, pobre e com mais algumas doenças venéreas no currículo.
A vida de um ex-presidiário não e fácil. O mercado de trabalho era fechado e nosso anti-herói passou alguns anos vivendo de seguro desemprego, bebendo e dando alguns tapas em Jackie sempre que ela esquecia onde era o seu lugar.
Três anos seguiram-se dessa forma.com pouquíssimas variantes irrelevantes a essa nossa já longa e aborrecida estória.
Ralph estava prosperando vendendo drogas que conseguia com um ex-colega de cela. Jackie após passar por uma fase de dentes amarelos, rugas prematuras e vários cortes de cabelo mal sucedidos, estava aproveitando um pouco do novo estilo de vida que o marido lhe proporcionava. Jerry estava bebendo um litro de whisky, vodka, tequila, ou o que quer que fosse o mais barato no momento ao dia.
Jerry caiu.
Exames foram feitos.
Adeus fígado.
O sistema de transplantes é talvez uma das maiores crueldades humanas já cometidas. Obviamente temos o direito de que atendam aos nossos desejos e deixem nossos restos mortais apodrecerem em um caixão caríssimo embaixo da terra e que nem sempre os transplantes funcionam mas a maior crueldade está na simples existência dele por fazer com que pessoas que poderiam ser facilmente convencidas a aceitar seu destino são inundadas de esperança por uma possibilidade extremamente remota.
Nessa situação encontrava-se Jerry que; se já não sabia porque continuar vivendo após perder os olhos; após destruir o fígado esperava a morte em um estado depressivo gravíssimo.
Por dois anos Jerry esperou o doador compatível que nunca aparecia e torceu juntamente com todo o pessoal da clinica para que mais pessoas jovens e saudáveis morressem para que ele pudesse viver.
Bill e Matt (lembra deles, os motoristas de ambulância com o isopor?) assistiram a tudo isso e não se conformaram com a situação. A gota d’água foi ver Ralph passeando com seu carro novo, tendo Jackie ao seu lado e os anéis de ouro em seus dedos que quatorze anos antes seguraram uma caneta para furar os olhos do primo. Decidiram fazer algo que somente faziam por muito dinheiro gratuitamente em consideração ao amigo.
A operação foi simples. Dois dias de pesquisa, uma arma de grosso calibre e um tiro em cada um. Nada de morte dramática, últimas palavras, nada.
Uma batida na porta.
Uma bala na testa.
Jackie morreu.
Uma bala no rosto.
Ralph morreu.
Bisturi, gelo, luvas.
O tão falado isopor carregando um fígado novo para Jerry.
Que após a operação, pode viver sua vida miserável por mais alguns anos.
E que quando soube como fora salvo, chorou como chorara todos os dias pelos últimos quatorze anos.
Desta vez, de felicidade.

sábado, setembro 20, 2003

Antes que qualquer julgamento de mérito seja emitido, pense bem consigo mesmo, o que você NÃO teria criado se fosse deus?
Miséria? Mosquitos? Hebe Camargo?
Cada um de nos tenta de alguma forma ou outra tomar controle sobre a vida ou vidas do maior número de coisas e pessoas possível. Nossos filhos são nossa criação, nosso trabalho, obras das nossas mentes ou mãos... Tentamos prosperar para estarmos acima dos mortais, nos vestimos e embelezamos para sermos mais belos que os mortais, cada um é o pequeno deus do seu pequeno universo.
Agora por que alguém criaria um aleijado?
Quatro sinais após empurrar o carro, uma criatura que tinha um dos cotovelos virados para frente e os pés virados para dentro, sem camisa, com uma sonda presa à cintura escora-se em meu carro com seu suor e imundície a menos de cinco centímetros do meu rosto e pede por uma ajuda. Quando eu disse que não, ouvi uma série de impropérios que em qualquer outro dia seriam ignorados e postos no recôndito das frustrações do meu âmago ou na lista de pessoas que eu quero ou queria a desforra, porém aquele era definitivamente um mau dia.
Por que qualquer pessoa doente ou pobre ou incapacitada espera imediatamente uma atitude piedosa da sociedade e acredita que suas privações lhe dão direitos especiais? Outra generalização que faço aqui, mas por que a miséria dos outros e sempre pior que a nossa e mesmo assim e tão mais interessante de ver?
Desci do carro com a trava da direção na mão e antes de dar o primeiro golpe covarde, pensei. Pensei em tudo que aconteceria, tudo que a minha atitude implicava. Não foi fúria estúpida e bruta, foi crueldade pura. O primeiro golpe foi no joelho arqueado que dobrou-se e inchou instantaneamente. Deitado ao chão urrando de dor foi ainda mais fácil desferir as outras doze batidas contra cabeça, braços e principalmente dentes.
Enquanto tudo acontecia, quase esqueci dos carros parados atrás de mim, das faces incrédulas dos motoristas que fechavam seus vidros e trancavam suas portas, comprimiam suas buzinas com toda força, falavam freneticamente em seus telefones celulares, minha raiva atrasando a execução de seus planos de tornarem-se deuses. As senhoras levando as mãos com unhas manicuradas por faveladas que lhes falavam mal pelas costas a boca, os senhores com os ternos Armani que pagam pequenas fortunas para que travestis bem dotados os tirem de suas miseráveis vidas conjugais de aparências por alguns sôfregos minutos dentro de um carro ou de um motel sujo, as pessoas que não sabem, nunca souberam e nem saberão porque vieram ao mundo olhando, um espanto e um prazer mórbido em seus olhos entediados.
Larguei a trava e esperei pela cavalaria. Pelo linchamento, dezenas de populares ensandecidos, desferindo golpes com punhos cerrados.
Donas de casas cravando as unhas nos meus olhos.
Sodomia.
Saliva espirrando de bocas sujas gritando por justiça.
Fogo.
Tortura.
Nada.
Ninguém acudiu. Ninguém agrediu. Todos continuaram assistindo a cena como vacas entediadas pastando naquele show de brutalidade. Dei os ombros e fui embora. Liguei o carro e fui embora lavar o cheiro de pobreza que estava impregnado nas minhas roupas. Senti-me bem. Muito bem.
Ontem eu vi um cego que anda com um cachorro de somente três pernas.
As possibilidades são infinitas.
Cada dia eu sou mais deus...

A seguir: Gran Finale de Jerry e sua trupe.
Aguardem

terça-feira, agosto 05, 2003

Não sei porque fiz. Tive que fazê-lo. Foi mais importante que qualquer outra atitude na minha vida e a mais prazerosa de todas. Acho que foi uma questão de tempo e fatos concomitantes que fizeram todas as frustrações, os descréditos, a raiva, a angustia virem a tona e buscarem algum tipo de satisfação, de saciedade, um acerto de contas com o meu lado otimista por assim dizer.
Começou como outro dia qualquer: acordei no sofá com a televisão ligada e aquele perfume asqueroso da prostituta que eu tinha passado a noite anterior impregnado nas minhas roupas. Passado a noite é um termo amplo; vá lá: meia hora de um quarto sujo, os preservativos usados entupindo o vaso sanitário e a lixeira, o ventilador de teto espalhando a poeira pelo interior daquele cubículo nojento e a minha descoberta dos sutiãs que fazem tetas caídas saltarem aos olhos como se desafiassem as leis da gravidade.
Fumei uns cigarros, tomei um banho, sentei na sala tomando uma coca cola e masturbando-me para a apresentadora daquele programa infantil, imaginava ela dizendo: “agora vou colocar o seu pauzinho na minha boca amiguinho, agora eu vou enfiar minha mãozinha até o pulso dentro da minha caverninha do amor”. Ah, como é boa... Mas como ia dizendo, saí de casa e quando sentei no carro, senti meu corpo inclinar-se à direita. Após algumas coçadas de cabeça concluí que era melhor eu sair do carro e verificar o porque. Óbvio que o pneu estava furado, assim como o estepe. Rolei aquele pneu murcho por uns
dez quarteirões até chegar a esse borracheiro. Entro no cubículo e por detrás de uma cortina escuto gemidos de mulher. Fico quieto mas eles percebem, o borracheiro sai do quarto com uma calça de moletom com aquela manchona e uma ereção latente, eu espio e vejo sua baranga lá deitadona de bruços acendendo um cigarro, os cabelos desgrenhados e as varizes azuis subindo ate aquela bunda enorme e gorda.
O serviço foi rápido e a tentação de tentar entrar naquele quarto grande mas eu não podia perder mais tempo, tinha que cortar o cabelo para essa entrevista de emprego. Rolei o pneu agora cheio até o carro, tirei o macaco e a chave de rodas e comecei a tentar desparafusar aquela lata velha. Obviamente as roscas dos parafusos estavam gastas e as tentativas nos trinta minutos seguintes inúteis. Voltei ao borracheiro que dessa vez não estava mais no quarto e sim do lado de fora segurando uma chave inglesa e aparentemente, esperando por mim. Segundo os seus gritos em que sua saliva fétida respingava em meu rosto, ele estava decidido a ensinar-me uma lição por ter espiado a mulher dele que percebera meus olhares e havia-lhe contado tudo. Aquela baranga tinha pudores então? Comecei a rir, o que não ajudou muito a situação e ele avançou com a chave. Com uma pequena escoriação no braço, consegui correr e começar a procurar pelo próximo borracheiro.
Finalmente encontrei o nobre trabalhador sentado fumando um baseado em cima de uma pilha de pneus velhos e ele concordou em acompanhar-me com suas ferramentas e trocar o pneu. Mais um cheque sem fundos e esse sabe onde fica minha garagem, melhor começar a trabalhar logo, penso eu.
Cheque voador emitido, borracheiro despachado, subo até o apartamento, troco de roupa e lavo as mãos (apresentação pessoal, importantíssimo para quem esta desempregado, anotem!), desço até o carro, sento ao volante, giro a chave e...
Ele não pega! Paro na calçada, esperando alguém com cara de trouxa, passa esse cara com a namorada, ela usando esses saltos enormes e aqueles cintos que não seguram as calças, ele só de bermuda e camiseta. Peço polidamente que me ajude a empurrar o carro, que situação, se ele diz que não a namoradinha vai achá-lo insensível E preguiçoso, ele começa a empurrar e eu aproveito para dar uma olhada no decote da mina dele que caminha junto ao carro. Lá pela terceira tentativa a máquina funciona, acelero o carro e deixo os dois lá atrás ele suado e gesticulando, ela xingando-o por ter ajudado.
Uns cinco minutos depois disso é que tudo aconteceu... Mas eu conto semana que vem, cansei agora.