terça-feira, agosto 05, 2003

Não sei porque fiz. Tive que fazê-lo. Foi mais importante que qualquer outra atitude na minha vida e a mais prazerosa de todas. Acho que foi uma questão de tempo e fatos concomitantes que fizeram todas as frustrações, os descréditos, a raiva, a angustia virem a tona e buscarem algum tipo de satisfação, de saciedade, um acerto de contas com o meu lado otimista por assim dizer.
Começou como outro dia qualquer: acordei no sofá com a televisão ligada e aquele perfume asqueroso da prostituta que eu tinha passado a noite anterior impregnado nas minhas roupas. Passado a noite é um termo amplo; vá lá: meia hora de um quarto sujo, os preservativos usados entupindo o vaso sanitário e a lixeira, o ventilador de teto espalhando a poeira pelo interior daquele cubículo nojento e a minha descoberta dos sutiãs que fazem tetas caídas saltarem aos olhos como se desafiassem as leis da gravidade.
Fumei uns cigarros, tomei um banho, sentei na sala tomando uma coca cola e masturbando-me para a apresentadora daquele programa infantil, imaginava ela dizendo: “agora vou colocar o seu pauzinho na minha boca amiguinho, agora eu vou enfiar minha mãozinha até o pulso dentro da minha caverninha do amor”. Ah, como é boa... Mas como ia dizendo, saí de casa e quando sentei no carro, senti meu corpo inclinar-se à direita. Após algumas coçadas de cabeça concluí que era melhor eu sair do carro e verificar o porque. Óbvio que o pneu estava furado, assim como o estepe. Rolei aquele pneu murcho por uns
dez quarteirões até chegar a esse borracheiro. Entro no cubículo e por detrás de uma cortina escuto gemidos de mulher. Fico quieto mas eles percebem, o borracheiro sai do quarto com uma calça de moletom com aquela manchona e uma ereção latente, eu espio e vejo sua baranga lá deitadona de bruços acendendo um cigarro, os cabelos desgrenhados e as varizes azuis subindo ate aquela bunda enorme e gorda.
O serviço foi rápido e a tentação de tentar entrar naquele quarto grande mas eu não podia perder mais tempo, tinha que cortar o cabelo para essa entrevista de emprego. Rolei o pneu agora cheio até o carro, tirei o macaco e a chave de rodas e comecei a tentar desparafusar aquela lata velha. Obviamente as roscas dos parafusos estavam gastas e as tentativas nos trinta minutos seguintes inúteis. Voltei ao borracheiro que dessa vez não estava mais no quarto e sim do lado de fora segurando uma chave inglesa e aparentemente, esperando por mim. Segundo os seus gritos em que sua saliva fétida respingava em meu rosto, ele estava decidido a ensinar-me uma lição por ter espiado a mulher dele que percebera meus olhares e havia-lhe contado tudo. Aquela baranga tinha pudores então? Comecei a rir, o que não ajudou muito a situação e ele avançou com a chave. Com uma pequena escoriação no braço, consegui correr e começar a procurar pelo próximo borracheiro.
Finalmente encontrei o nobre trabalhador sentado fumando um baseado em cima de uma pilha de pneus velhos e ele concordou em acompanhar-me com suas ferramentas e trocar o pneu. Mais um cheque sem fundos e esse sabe onde fica minha garagem, melhor começar a trabalhar logo, penso eu.
Cheque voador emitido, borracheiro despachado, subo até o apartamento, troco de roupa e lavo as mãos (apresentação pessoal, importantíssimo para quem esta desempregado, anotem!), desço até o carro, sento ao volante, giro a chave e...
Ele não pega! Paro na calçada, esperando alguém com cara de trouxa, passa esse cara com a namorada, ela usando esses saltos enormes e aqueles cintos que não seguram as calças, ele só de bermuda e camiseta. Peço polidamente que me ajude a empurrar o carro, que situação, se ele diz que não a namoradinha vai achá-lo insensível E preguiçoso, ele começa a empurrar e eu aproveito para dar uma olhada no decote da mina dele que caminha junto ao carro. Lá pela terceira tentativa a máquina funciona, acelero o carro e deixo os dois lá atrás ele suado e gesticulando, ela xingando-o por ter ajudado.
Uns cinco minutos depois disso é que tudo aconteceu... Mas eu conto semana que vem, cansei agora.