sábado, setembro 20, 2003

Antes que qualquer julgamento de mérito seja emitido, pense bem consigo mesmo, o que você NÃO teria criado se fosse deus?
Miséria? Mosquitos? Hebe Camargo?
Cada um de nos tenta de alguma forma ou outra tomar controle sobre a vida ou vidas do maior número de coisas e pessoas possível. Nossos filhos são nossa criação, nosso trabalho, obras das nossas mentes ou mãos... Tentamos prosperar para estarmos acima dos mortais, nos vestimos e embelezamos para sermos mais belos que os mortais, cada um é o pequeno deus do seu pequeno universo.
Agora por que alguém criaria um aleijado?
Quatro sinais após empurrar o carro, uma criatura que tinha um dos cotovelos virados para frente e os pés virados para dentro, sem camisa, com uma sonda presa à cintura escora-se em meu carro com seu suor e imundície a menos de cinco centímetros do meu rosto e pede por uma ajuda. Quando eu disse que não, ouvi uma série de impropérios que em qualquer outro dia seriam ignorados e postos no recôndito das frustrações do meu âmago ou na lista de pessoas que eu quero ou queria a desforra, porém aquele era definitivamente um mau dia.
Por que qualquer pessoa doente ou pobre ou incapacitada espera imediatamente uma atitude piedosa da sociedade e acredita que suas privações lhe dão direitos especiais? Outra generalização que faço aqui, mas por que a miséria dos outros e sempre pior que a nossa e mesmo assim e tão mais interessante de ver?
Desci do carro com a trava da direção na mão e antes de dar o primeiro golpe covarde, pensei. Pensei em tudo que aconteceria, tudo que a minha atitude implicava. Não foi fúria estúpida e bruta, foi crueldade pura. O primeiro golpe foi no joelho arqueado que dobrou-se e inchou instantaneamente. Deitado ao chão urrando de dor foi ainda mais fácil desferir as outras doze batidas contra cabeça, braços e principalmente dentes.
Enquanto tudo acontecia, quase esqueci dos carros parados atrás de mim, das faces incrédulas dos motoristas que fechavam seus vidros e trancavam suas portas, comprimiam suas buzinas com toda força, falavam freneticamente em seus telefones celulares, minha raiva atrasando a execução de seus planos de tornarem-se deuses. As senhoras levando as mãos com unhas manicuradas por faveladas que lhes falavam mal pelas costas a boca, os senhores com os ternos Armani que pagam pequenas fortunas para que travestis bem dotados os tirem de suas miseráveis vidas conjugais de aparências por alguns sôfregos minutos dentro de um carro ou de um motel sujo, as pessoas que não sabem, nunca souberam e nem saberão porque vieram ao mundo olhando, um espanto e um prazer mórbido em seus olhos entediados.
Larguei a trava e esperei pela cavalaria. Pelo linchamento, dezenas de populares ensandecidos, desferindo golpes com punhos cerrados.
Donas de casas cravando as unhas nos meus olhos.
Sodomia.
Saliva espirrando de bocas sujas gritando por justiça.
Fogo.
Tortura.
Nada.
Ninguém acudiu. Ninguém agrediu. Todos continuaram assistindo a cena como vacas entediadas pastando naquele show de brutalidade. Dei os ombros e fui embora. Liguei o carro e fui embora lavar o cheiro de pobreza que estava impregnado nas minhas roupas. Senti-me bem. Muito bem.
Ontem eu vi um cego que anda com um cachorro de somente três pernas.
As possibilidades são infinitas.
Cada dia eu sou mais deus...

A seguir: Gran Finale de Jerry e sua trupe.
Aguardem